Acionabilidade: A ponte entre o sequenciamento e a ação clínica
Nos artigos anteriores do nosso blog, já demonstramos o quanto as informações genômicas se tornaram cada vez mais presentes na medicina a partir do avanço das tecnologias de sequenciamento. Porém, ainda há um caminho longo entre o oceano de informações gerado pelo sequenciamento de nova geração (NGS) e o direcionamento clínico.
Neste artigo, iremos explorar como as análises genômicas evoluem de um contexto laboratorial para a prática clínica.
O desafio clínico dos dados genômicos
Já abordamos anteriormente como painéis de genes específicos podem ser utilizados quando têm influência direta sobre um fenótipo. Mas como chegar à definição de que uma alteração molecular apresenta potencial clínico?
Ao explorarmos conjuntos de dados extensos, como em um sequenciamento de exoma (WES) ou genoma (WGS), milhares de alterações podem ser identificadas. E, para lidar com essa quantidade de dados, é necessário avaliar aspectos como o impacto funcional, a evidência clínica e a relevância terapêutica. Um destes aspectos é justamente a acionabilidade, que, no contexto genômico, seria o potencial de uma alteração molecular para orientar decisões clínicas através de informações diagnósticas, prognósticas e de sensibilidade ou resistência a tratamentos.
Ao avaliar os resultados de um sequenciamento, devemos nos perguntar:
- Essa variante impacta a função gênica ou proteica?
- Existem evidências de que essa variante seja causadora de doenças?
E, especialmente:
- Existem terapias direcionadas para esse achado específico?
Essas questões fornecem a base para avaliar se uma variante apresenta potencial de utilidade clínica. A mesma variante pode ser considerada acionável ou não, a depender do caso observado.
Por exemplo:
- Alterações patogênicas em BRCA1/2 são os principais indicadores de predisposição genética ao câncer de mama e também estão associados à sensibilidade a inibidores da PARP.
- O gene APOE é um gene-chave associado à doença de Alzheimer, possuindo alelos tanto protetivos quanto de risco.
Esses mesmos achados, quando avaliados em outros contextos clínicos, podem não apresentar utilidade clínica ou implicações terapêuticas, não sendo considerados acionáveis. Portanto, a acionabilidade está intimamente relacionada com o fenótipo e contexto clínico analisado.
O espectro de alterações genômicas potencialmente acionáveis inclui diferentes classes de eventos, como variantes pontuais (SNPs), fusões gênicas, variantes de número de cópias (CNVs), instabilidade de microssatélites (MSI) e carga mutacional tumoral (TMB), entre outros.
No campo da oncologia, onde há um maior avanço nesse quesito de acionabilidade, existem diretrizes, como as da AMP/ASCO/CAP, que buscam padronizar níveis hierárquicos de acionabilidade, do uso consolidado às evidências emergentes.
- Nível I: forte significado clínico (terapias aprovadas)
- Nível II: potencial significado clínico
- Nível III: significado incerto
- Nível IV: benigna/provavelmente benigna
Ainda assim, essa interpretação exige atualização constante e curadoria das evidências científicas, integração com observações clínicas e, acima de tudo, capacidade de gerar e analisar novos dados. Nesse contexto, a Biomelting atua como a ponte entre a geração de dados de alta qualidade e sua interpretação clínica, por meio de análises bioinformáticas e curadoria de evidências, facilitando a identificação de achados com potencial relevância clínica.
Bibliografia Recomendada:
Para os leitores que desejam saber mais detalhes a respeito do processo de identificação e interpretação de alterações genômicas com potencial significado clínico, recomendamos as seguintes leituras:
- CARTER, Tonia C.; HE, Max M. Challenges of identifying clinically actionable genetic variants for precision medicine. Journal of healthcare engineering, v. 2016, n. 1, p. 3617572, 2016.
- CLINICAL GENOME RESOURCE (ClinGen). Clinical Actionability. Disponível em: https://clinicalgenome.org/curation-activities/clinical-actionability/. Acesso em: 27 mar. 2026.
- GODDARD, Katrina AB et al. Establishing the medical actionability of genomic variants. Annual review of genomics and human genetics, v. 23, p. 173-192, 2022.
- HUNTER, Jessica Ezzell et al. A standardized, evidence-based protocol to assess clinical actionability of genetic disorders associated with genomic variation. Genetics in Medicine, v. 18, n. 12, p. 1258-1268, 2016.
- LI, Marilyn M. et al. Standards and guidelines for the interpretation and reporting of sequence variants in cancer: a joint consensus recommendation of the Association for Molecular Pathology, American Society of Clinical Oncology, and College of American Pathologists. The Journal of molecular diagnostics, v. 19, n. 1, p. 4-23, 2017.











