Classificação de variantes genéticas: como transformar dados em decisão clínica
O câncer não é uma doença de etiologia única. Ele surge principalmente a partir do acúmulo de alterações genéticas que comprometem mecanismos essenciais, como a apoptose e o controle da proliferação celular, resultando na formação de clones celulares agressivos.
Contudo, nem toda alteração genética tem impacto funcional.
Nesse contexto, as mutações podem ser divididas em dois grandes grupos:
- Mutações passenger, que acompanham o processo, mas não têm papel causal
- Mutações driver, que contribuem diretamente para o desenvolvimento e progressão tumoral
As mutações driver ocorrem, em geral, em genes que regulam o comportamento celular, como:
- Genes supressores tumorais, responsáveis por frear o crescimento celular (ex.: TP53, RB1, BRCA1/2, MLH1)
- Oncogenes, que atuam como aceleradores da proliferação (ex.: RAS, MYC, BRAF, ABL)
Variantes somáticas vs germinativas
As alterações genéticas também podem ser classifcadas quanto à sua origem:
- Somáticas: adquiridas ao longo da vida, associadas a fatores ambientais ou erros na divisão celular
- Germinativas: presentes desde o nascimento e transmissíveis entre gerações
Essa distinção é essencial para definir risco hereditário e estratégias de tratamento.
Tipos de alterações genéticas
As variantes podem ocorrer em diferentes níveis:
Alterações estruturais:
- Translocações
- Deleções
- Inserções
- Inversões
- Amplificações
Alterações pontuais
- Missense: troca de aminoácido
- Nonsense: geração de códon de parada
- Silenciosas: sem alteração no aminoácido
- Frameshift: alteração da matriz de leitura
- In-frame: inserções/deleções sem alterar a leitura global
Como essas variantes são identificadas?
Com o avanço das tecnologias de sequenciamento, tornou-se possível identificar milhares de variantes simultaneamente. Entre as principais abordagens estão:
- Painéis multigênicos de nova geração (NGS)
- Exoma completo
- MLPA, FISH e PCR, especialmente em análises somáticas
No entanto, o maior desafio não está na geração dos dados, mas na sua interpretação.
Como as variantes são classificadas?
A classificação segue diretrizes internacionais:
- ACMG/AMP (2015) para variantes germinativas
- ASCO/CAP para variantes somáticas
As variantes são categorizadas como:
- Benignas
- Provavelmente benignas
- Variantes de Significado Incerto (VUS)
- Provavelmente patogênicas ou provavelmente oncogênicas quando somáticas
- Patogênicas ou oncogênicas quando somáticas
Uma variante é considerada patogênica quando há forte evidência de associação com doença, baseada em múltiplas linhas de evidência; e oncogênica quando há evidências de que contribui para o desenvolvimento, progressão tumoral ou impacto na resposta terapêutica.
O que é necessário para classificar uma variante?
A classificação não depende de um único dado, mas da integração de diversas fontes:
Bancos de dados populacionais
Permitem avaliar a frequência da variante na população:
- gnomAD
- dbSNP
- 1000 Genomes Project
Bancos fenotípicos
Relacionam variantes a doenças conhecidas:
- OMIM
- Orphanet
Ferramentas computacionais
Algoritmos in silico predizem o impacto funcional da variante:
- Análise de conservação evolutiva
- Predição estrutural (ex.: AlphaFold)
- Avaliação de impacto em splicing e função proteica
Essas ferramentas ajudam a identificar se a variante pode comprometer a função da proteína, como impedir a formação de complexos proteicos.
Integração das evidências
Todos esses dados são integrados segundo critérios como:
- Frequência populacional
- Evidência funcional
- Dados computacionais
- Segregação familiar (germinativa)
- Hotspots de câncer (somática)
Um processo dinâmico
A classificação de variantes não é definitiva. Uma variante pode ser reclassificada à medida que novos dados científicos se tornam disponíveis, o que reforça a necessidade de atualização contínua.
Por que isso importa?
A classificação de variantes é o elo entre o sequenciamento genético e a decisão clínica.
É ela que permite transformar dados genômicos em:
- diagnóstico mais preciso
- definição de risco hereditário
- escolha terapêutica mais adequada
É assim que a genômica se consolida na prática clínica: não apenas gerando dados, mas transformando informação em decisões que direcionam o cuidado.
Referências
- ANDRIKOPOULOU, A. et al. Germline and somatic variants in ovarian carcinoma: a next-generation sequencing analysis. Frontiers in Oncology, v. 12, 2022.
- HORAK, P. et al. Standards for the classification of pathogenicity of somatic variants in cancer (oncogenicity). Genetics in Medicine, v. 24, n. 5, p. 986-998, 2022.
- LI, M. M. et al. Standards and guidelines for the interpretation and reporting of sequence variants in cancer. Journal of Molecular Diagnostics, v. 19, n. 1, p. 4-23, 2017.












